Publicado em 1937, o romance de Jorge Amado sofreu represálias por parte do poder instituído, que se estendia desde autoridades locais, coronelismo até o “estado novo” varguista.
A narrativa envolve Pedro Bala, líder dos “capitães”, filho de um grevista morto pela polícia, com um tiro. Em torno dele, outros meninos, como Sem-Pernas, João Grande, Professor, Gato, Querido-de-Deus e Pirulito, dentre outros.
Cometendo furtos e vivendo como gente grande, no areal de Salvador, os meninos, por volta de quatorze ou quinze anos, são mostrados como vítimas da sociedade capitalista. Vale lembrar que o livro sai em 1937, auge do varguismo. Os adultos respeitados pelo grupo são apenas dois : padre José e Aninha, mãe de santo. Uma cena emblemática, é o momento em que Professor (João José) toma o capote de um homem que se ofendera com seu desenho, tendo inclusive apanhado deste homem. O capote torna a figura do adulto um estrangeiro, alguém fora do ambiente quente de Salvador. Com a indumentária mal apanhada no corpo, Professor se mostra meio menino, meio adulto.
“João José, o professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias de uma estante de uma casa na Barra, se tornara perito nestes furtos. Nunca porém, vendia os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não os roessem. Lia-os todos numa ânsia era quase febre. Gostava de saber coisas (...) . João José era o único que lia corretamente entre eles e, no entanto, só estivera na escola ano e meio (...).”
Os policiais também fazem parte dos sonhos de ódio dos capitães. Até a família singela, que adota Sem-Pernas, padece, vítima do assalto dos meninos, pois eram ricos. Professor chega a ser reconhecido, na rua, como um futuro desenhista de sucesso, mas não consegue acreditar na proposta de um homem bem vestido que lhe dá um cartão. O menino prefere ficar com a piteira que recebera, deixando o cartão pela sarjeta.
Marcando
época, está a varíola, que acaba vitimando ricos e pobres. Boa-Vida, um dos
capitães, é acometido pela “bexiga”, mas fica saudável.
Com a chegada de Dora
ao trapiche, percebe-se um rito de passagem para todo o grupo. Seus pais haviam
morrido de “alastrim”, a varíola. Protegida pelo bando, torna-se uma mescla de
menina e menino, ágil, companheira, vestida de homem, no início de sua aparição
na história. Presos, Dora vai a um orfanato e Pedro ao reformatório. Torturado,
não revela a morada dos outros capitães. Com ajuda dos demais que ficaram fora,
consegue fugir, mesmo enfraquecido por passar oito dias em uma cafua, espécie
de solitária. Dora é retirada do orfanato pelo bando, muito doente. Ela e Pedro
se amam no trapiche e, em seguida, ela morre. Impossível não lembrar Romeu e
Julieta, muito menos esquecer Iracema, enterrada na praia, deixando seu amado
Martim com sua memória. Dora é levada mar adentro, oferecida a Iemanjá.
Sem-Pernas também passa por uma espécie de rito de crescimento, quando se vê
seduzido pela quarentona que o acolhe, envolvida no mesmo plano de outrora,
entrar e abrir caminho para os demais roubarem.
“Estes eram seus companheiros, eram iguais a
ele, eram as vítimas de todos os demais, pensava o Sem-Pernas. E agora sentia
que os estava abandonando, que estava passando para o outro lado.. Com este
pensamento sobressaltou, sentou-se. Antes de tudo estava a lei do grupo, a lei
dos Capitães da areia. Os que a traíam eram expulsos e nada de bom os esperava
no mundo.(...) Mas a comida a roupa, o quarto,o carinho de dona Ester tinham
feito que ele passasse já oito dias. Tinha sido comprado por esse carinho, como
o estivador tinha sido comprado por dinheiro. Não, não trairia. Mas aí pensou
se não ia trair dona Ester. Ela confiara nele. (...)”
Logo
em seguida, os capitães irão se dispersar. Gato vai para Ilhéus, Professor
parte para o Rio de Janeiro (capital do país), Pirulito torna-se frade, padre
José vai ao interior, em nova paróquia, Volta Seca entra para o bando de
Lampião, João Grande vira marinheiro, Sem-Pernas suicida-se e Querido-de-Deus
segue sua vida de capoerista. Pedro Bala deixa o trapiche, torna-se líder
comunista, após se envolver com os doqueiros. Fim.
O
livro revela a diferença de classe e a violência contra os mais pobres,
vitimados pelo que se acostumou a ler como “os ricos”. De caráter panfletário e
feito em forma de uma sequência de episódios, “Capitães da areia” se esforça
para expor a vida de meninos abandonados em um caráter quase documental, uma
vez que as notícias publicadas antes do primeiro capítulo, dariam
verossimilhança à narrativa, numa uma necessidade de fazer da obra uma arma
contra a miséria.
Lima
Barreto já se enveredara pelo caminho das diferenças sociais, assim como
Aluísio Azevedo. Contudo, a linguagem do texto de Amado é mais simples e as
imagens diretas. Há pouca profundidade psicológica, quando o foco não é Pedro
Bala. Uma cena estapafúrdia se dá quando Sem-Pernas, menino de, no máximo
quatorze anos, sai do cinema e vai a uma sorveteria, com sua então família de
pessoas ricas mas que nem desconfiam de seu passado ou intenções. Pois quando
ao menino é oferecido sorvete, o narrador revela seu pensamento: queria uma
cervejinha. Enfim, prevalece a caricatura, mesmo na exposição das angústias,
por exemplo, de Sem Pernas ou Professor. Há quem diga que lhes falta carinho de
mãe, daí todos buscassem algo a substituir, como Dalva (Gato), padre
(Pirulito), famílias (Sem pernas) e por aí vai. Mais de uma vez, o narrador
explica o óbvio, dizendo ao leitor que Dora é “mãe, irmã e noiva” de Pedro.
Haja paciência. De fato, as carências são bem claras, mas não aprofundadas.
Existe um tanto de determinismo na construção das figuras, rodeadas pelas docas
sujas, bares com homens jogando baralho, bebedeira, putas, soldados cheios de
ódio e a imensidão do mar. O bando de Ezequiel é consequência clara do ambiente
sem regras e miserável... assim como a ideia de um reformatório pior que uma
prisão.
Os
“capitães” são mesmo equivalentes à origem do termo : “caput”, em latim,
“cabeça”, ou seja, capazes, racionais, capitais. Não são adultos tampouco
crianças; são da areia: nem mar, nem terra.
Dora,
um símbolo, é anagrama de “roda” e também “a dor”...
Enfim,
a chance do debate sobre a miséria e o valor da confiança e união seriam o lado
positivo de mais um romance socialista de Jorge Amado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário